A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO MÉDICO PARA A SAÚDE DO CELÍACO.

A IMPORTÂNCIA DO ACOMPANHAMENTO MÉDICO PARA A SAÚDE DO CELÍACO.

“A Doença Celíaca  é uma doença de origem imunológica e se caracteriza pela ocorrência de uma intensa reação inflamatória no intestino delgado toda vez que este é exposto a alimentos que contenham glúten. Em alguns casos, a inflamação pode ser tão severa que destrói as vilosidades da mucosa do intestino delgado, que são responsáveis pela absorção de boa parte dos nutrientes”.
-Mas somente retirar o glúten da dieta é suficiente? Nosso intestino vai se curar independente da severidade do seu estado? Com que frequência devemos consultar um médico? Qual médico trata pacientes com Doença Celíaca?

Para aprofundar os temas: acompanhamento e saúde do intestino do Celíaco, a gastroenterologista e endoscopista, especialista em Doença Celíaca Luciana Aun conversou conosco.

 

– Após iniciar a dieta sem glúten, a mucosa do intestino se recupera em quanto tempo?

Dra. – Em relação à mucosa do intestino é controverso, anticorpos com a dieta sem glúten se normalizam de 12 a 24 meses, o tempo da recuperação da mucosa é incerto. Estima-se que seja nesse período. Alguns pacientes podem demorar mais, às vezes os anticorpos podem normalizar antes que a mucosa.

 

– Os deslizes na dieta podem retardar ainda mais o tempo de recuperação da mucosa?

Dra. – Sem dúvida absoluta. Não tem que ter deslize, ser 100% sem glúten e ter atenção especial.

 

– As complicações são graves?

Dra. – Sim, são várias complicações, as mais graves são as neoplasias. O paciente que não faz dieta totalmente isenta de glúten tem um aumento de risco para certos tumores como: câncer de intestino, linfoma do intestino (linfoma associado a enteropatia que é mais frequente e mais fatal), câncer carcinoma de oreofaringe, de esôfago tem risco aumentado. A dieta é um fator protetor, se não faz dieta ele tem o fator de risco para tumores aumentado. Além de outras complicações como ginecológicas, tipo ausência de menstruação, infertilidade, abortamento de repetição. Casos como anemia, anemia por deficiência de ferro, anemia por deficiência de vitamina b12 ou acido fólico (anemia megaloblástica), osteoporose. Por isso hoje em dia é mandatório fazer densitometria óssea, dosagem de cálcio, vitamina B12 e vitamina D anual em todos os pacientes inclusive no momento do diagnóstico.

 

– Quando o intestino está muito atrofiado, podemos adquirir outras intolerâncias?

Dra. – Sim. Numa fase inicial o paciente pode ter intolerância a lactose e a sacarose, relativa à própria inflamação do intestino, se não for tratado o Celíaco pode apresentar problemas por toda a vida, reagindo a várias proteínas, mas quando a mucosa volta ao normal, o médico reintroduz a lactose e a sacarose de acordo com a melhora do paciente. São 3 fases de tratamento nutricional: 1° fase: tirar o glúten, lactose e sacarose, depois vai fazer a transição para a fase de manutenção, ver se o paciente esta melhor, se está se recuperando, se os anticorpos estão normais, se a biopsia já melhorou, aí começa a liberar a lactose e sacarose. A terceira fase fica só sem glúten o resto da vida.

 

– No caso do supercrescimento bacteriano do intestino delgado, para restaurar a quantidade normal de bactérias boas, é necessário tratamento ou a dieta sem glúten é suficiente?

Dra. – Não é só a dieta sem glúten, muitas vezes durante a vida do Celíaco tem que fazer uso de antibiótico para tratamento desse supercrescimento bacteriano, pois o quadro de inflamação do intestino devido à DC aumenta a permeabilidade intestinal, que faz com que ocorra a translocação bacteriana, ou seja, como se fosse um desarranjo das bactérias intestinais, e o paciente pode ter diarreia, mas não pela DC, por esse supercrescimento bacteriano.

 

– No caso do paciente não melhorar com a dieta livre de glúten, o que fazer?

Dra. – O que se recomenda primeiro é investigar se esse paciente não está ingerindo glúten, depois que tiver certeza que está fazendo tudo certo, aí pode-se considerar uma doença refratária. Então tem que descartar complicações, verificar se esse paciente está com linfoma, pedir alguns exames. Se não é uma complicação, se não está com linfoma, se esse paciente está fazendo a dieta direito, então utilizamos alguns medicamentos como imunossupressores e corticoides.

 

– Com que frequência é preciso consultar um gastro e realizar exames para verificar a saúde do intestino?

Dra. – Quando faz o diagnostico de DC, solicita-se exames, resgata o organismo melhorando as funções (nutrir o Celíaco), orienta-se dieta, então fazer o primeiro exame de controle a partir dos primeiros 6 meses, aí fazemos exames para anticorpos. Os anticorpos diminuindo a titulação, esta vendo que o paciente está apresentando uma resposta, aí pelo menos 1 vez por ano. Anticorpos, endoscopia com biopsia, ver se está com anemia, pedir uma densitometria óssea, dosagem de cálcio, vitamina D, ver se tem outras deficiências vitamínicas, não só exame para Doença Celíaca, mas para outras complicações

 

– A colonoscopia com biópsia é exame necessário?

Dra. – Não. A DC é uma doença do intestino delgado, ela não acomete o intestino grosso. Pensaria em fazer uma colonoscopia mais em uma fase inicial, para descartar outras causas de doenças intestinais. Para acompanhamento e diagnóstico não é necessário, apenas para descartar complicações.

 

– Iniciar por si próprio uma dieta livre de glúten prejudica o resultado dos exames?

Dra. – Sim. Jamais iniciar a dieta sem glúten antes do diagnóstico sorológico e biopsia intestinal.

 

– Qual é o especialista que trata o Celíaco?

O médico Gastroenterologista é o especialista em Doença Celíaca, ele quem cuida do Celíaco desde o diagnóstico até o acompanhamento, por toda vida.

 

Consulte um gastroenterologista, siga a dieta 100% sem glúten, respeite as datas de acompanhamento. É muito importante relatar ao médico se não observar melhoras no tratamento.

Nossos sinceros agradecimentos à Dra. Luciana Aun – Gastroenterologista e Endoscopista, especialista em Doença Celíaca.
Chefe do Departamento de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina – Regional Santos.

Entrevista e texto: Elisa Soares Fonseca